23 fev 2017

Da loja ao lixo – a corrida desenfreada do consumismo

por há 4 meses atrás
Artigos | Consumo
Da loja ao lixo – a corrida desenfreada do consumismo

Nesses tempos em que o consumismo se torna uma marca cada vez mais forte em nossa sociedade, em que o descartável é cada vez mais presente em nosso dia a dia, em que o consumo inconsciente consome cada vez mais os nossos recursos naturais, precisamos refletir sobre o tempo que leva entre comprar um produto e descartá-lo no lixo.

Muitas vezes, compramos o que não precisamos e desperdiçamos o que não é nosso. Em algum momento, isso nos fará falta. De acordo com E-waste World Map, primeiro mapa global de lixo eletrônico produzido com a coordenação da ONU, o mundo produzirá 65,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2017 (8,7 kg por habitante), causando grandes impactos econômicos, sociais e ambientais.

+ lixo e – comida – Em relação aos alimentos, 1/3 do total que é produzido no mundo se perde, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO. O Brasil está entre os dez países que mais desperdiçam comida no mundo, com aproximadamente 35% de toda a produção agrícola indo para o lixo. Esse desperdício acontece em todas as etapas, desde o início, na plantação, passando pelo transporte e industrialização, até o manuseio e preparo pelo consumidor.

O desperdício se torna cada vez mais corriqueiro em nossa sociedade e acaba sendo tão comum, que não desperta mais nossa atenção. O tempo entre a compra do produto e o momento em que ele vai para o lixo é cada vez menor. Em muitos casos, vemos que aquele produto não é o que imaginávamos ou não era o que precisávamos.

Poder de decisão – Devemos ficar atentos, pois cabe também a nós definirmos esse tempo de vida de cada produto. Devemos ficar atentos às nossas decisões. Quando devemos comprar e o que comprar. Como devemos usar e por quanto tempo utilizar. Como saber se o produto não é mais necessário e o que fazer a partir daí. Devemos retomar a antiga prática de consertar equipamentos, afinal, não podemos descartar tudo quando surge o primeiro problema.

E isso nos leva a outra reflexão. Observamos que esses hábitos afetam diretamente não apenas nossa relação com os produtos adquiridos, como também, com as pessoas que vivem a nosso redor. As visões de longo prazo se perdem. Tudo é imediato e disponível.

O mal do imediatismo – O grande sociólogo polonês Zygmunt Bauman, falecido dia 9 de janeiro, nos alertava que estamos perdendo nossa capacidade de sonhar e de olhar para o futuro. Vivemos tempos em que tudo é efêmero.  Vivemos na economia do excesso e consumindo as aparências.

Que as lições de Bauman nos ajudem a sermos mais e termos menos. Que sejamos donos de nosso tempo e conscientes de nossas escolhas. Que cuidemos mais das nossas emoções e do mundo em que vivemos. Que problemas sejam motivos para se consertar e não para se descartar. Não apenas o meio ambiente ganhará com isso, como também, as relações humanas serão, certamente, mais sustentáveis.

 

Emiliano Lôbo de Godoi
Professor, doutor da Escola de Engenharia Ambiental e Sanitária da Universidade Federal de Goiás (UFG)
emiliano@ufg.br

Foto: Corália Elias – Beco do Batman-SP