A dengue e a coleta seletiva

11 de dezembro de 2015, por em Artigos, Lixo
A dengue e a coleta seletiva

Se fosse gente, o Aedes Aegypti, popularmente conhecido como mosquito da dengue, teria um perfil mais ou menos assim: Não discrimina ninguém. Não escolhe classe social. Entra nos condomínios de luxo sem passar por seguranças armados. Não faz negociatas às escuras, age mesmo à luz solar.  Não escolhe suas vítimas. Prefere domicílios seguros para se reproduzir com sombra e água fresca. Paciente, aguarda até muitas estações para a hora certa de agir. Nada de rusticidade – adora a vida urbana e os humanos. Persistente – ronda, ronda, ronda até conseguir a quase indolor picada. Empreendedor – adapta-se facilmente às mudanças ambientais e, na crise, descobre meios de sobreviver. Que lição de resiliência nos dá o odioso pernilongo.

Mas, o que a dengue tem a ver com a coleta seletiva? Tudo. Tanto já se discutiu sobre este assunto desde a implantação do projeto na cidade de Goiânia lá pelos idos de 2007! Posso dizer que participo deste movimento desde o seu início. Ainda à época das minhas pesquisas para o mestrado em Ecologia Humana, conversei com dona Lúcia da Cooprec (cooperativa de reciclagem) e tirei algumas impressões deste encontro. O material reciclável era entregue regularmente. No entanto, recebiam apenas 40% do que costumavam coletar por conta própria.

De volta ao passado – No material que presenciei ser entregue, tinha muito lixo. Fraldas descartáveis sujas e seringas com agulhas, por exemplo. Dona Lúcia dizia-me ainda manter a esperança de que as coisas melhorassem. Saí de lá com uma vontade de retomar as ações do saudoso Fórum de Coleta Seletiva e Inclusão Social que abriu o diálogo entre o poder público e o Movimento de Catadores. Fazer um relançamento do filme “Catador de Sonhos” e devolver ao assunto o status de prioridade que merece. Isto tudo aconteceu em junho de 2013.

Ontem, a coleta seletiva deveria ter passado no meu bairro, mas não passou. Em dia de coleta apenas dois moradores colocam os sacos com material reciclável na sua porta. O caminhão da prefeitura passa a uma velocidade incompatível para um veículo coletor. A babá da minha filha pergunta: “pra quê separar o lixo se o pessoal da coleta nem passa pra pegar? Quem garante que eles não acabam misturando tudo no final?”.

A pracinha em frente a minha casa é um berçário natural para o mosquito. Tampinhas de pets, marmitas de alumínio, sacos plásticos com água até limpa. Voltamos à estaca zero. A resposta continua a mesma: educação ambiental para a população e, sobretudo, para as crianças – herdeiras de pais poluidores vivos. E educar é repetir, repetir e repetir. Afinal, cuidar do que descartamos também é uma das estratégias para deter os voos do nosso inimigo público número um e, de quebra, ainda resgatar a dignidade de pessoas que têm a nobreza de reciclar o que teimamos em chamar de lixo.

Carolina Magalhães – Mestra em Ecologia Humana e Problemas Sociais Contemporâneos pela Universidade Nova de Lisboa/Portugal. Pós-graduada em Gestão Ambiental. Graduada em Administração de Empresas, com Formação Complementar em Educação Corporativa e Responsabilidade Social Empresarial.
magalhaes.carol@yahoo.com.br