É cada coisa que se faz com lixo…!

4 de abril de 2013, por em Artigos
É cada coisa que se faz com lixo…!

A primeira oportunidade que tive de ver artistas trabalhando com lixo foi em 1999, na Semana de Arquitetura da Universidade Federal de Santa Catarina. Na época eu estudava Engenharia Mecânica e, juntamente com outros amigos, auxiliei os colegas da Arquitetura na organização do evento.

Sobre o anfiteatro a céu aberto, foi montada uma estrutura treliçada, esférica, com bambu coletado numa moita ali pertinho (um conceito sustentável). A cobertura foi feita com embalagens de leite longa vida (aplicação igualmente sustentável). Além de altamente conceitual, a instalação era estruturalmente eficiente e a estética inovadora. A turma conseguiu construir um ambiente mágico para sediar o evento.

Uma das atrações da programação foi um artista extraordinário, cujo nome não registrei, que ministrou uma oficina de música. No centro do anfiteatro, com uma centena de pessoas ao seu redor, ele esparramou uma porção de instrumentos e uma bagulheira de lixo e sucata (latas, galões, panelas e bacias velhas, molas e escapamentos de carro e outras tranqueiras). Iniciou a oficina falando dos instrumentos de percussão e tocando alguns tambores. Em seguida, marcou um ritmo bem definido e foi entregando os instrumentos e as bagulheiras para os participantes, ao mesmo tempo em que tocava e regia a galera, até formar quase que uma orquestra. Foi um verdadeiro transe coletivo. Uma das atrações mais comentadas e elogiadas do evento.

Anos depois, já morando em Goiânia, dando meus primeiros passos na profissão de produtor cultural, tive a oportunidade de participar do nascimento e trabalhar por mais de cinco anos com o grupo Vida Seca (http://www.vidaseca.com.br/). Essa turma é muito boa para “tirar som do lixo”. Desde então, venho pesquisando e conhecendo uma porção de artistas talentosíssimos, com capacidade para transformar lixo em arte, no mundo todo. E não só na música, mas em diversas vertentes artísticas, como design, teatro, circo, moda, artes visuais, cinema, etc.

Na virada das décadas de 80 para 90, antes mesmo da Rio 92 (http://pt.wikipedia.org/wiki/ECO-92), evento que popularizou o tema “sustentabilidade”, o carnavalesco Joãozinho Trinta inovou o carnaval brasileiro com o tema “Lixo é Luxo”. Na ocasião, alegorias, carros e fantasias utilizaram o lixo como matéria-prima para sua confecção. Mais ou menos naquela época, nascia também o grupo Afro Reggae (http://www.afroreggae.org/), que realiza um valiosíssimo trabalho de inclusão social se utilizando também do lixo como matéria-prima artística.

Já no final da década de 90, o músico, ator e engenheiro Márcio Vieira iniciou pesquisa utilizando material alternativo para a criação de instrumentos musicais e cenários. Em parceria com o Circo Teatro Udi Grudi (http://www.circoudigrudi.com.br/quemsomos.html) esta pesquisa culminou na montagem dos espetáculos “O Cano” (1998), “Lixaranga” (2002) e “Ovo” (2003) e do curta-metragem “A Casa do Mestre André”(2006). Em todos eles, o lixo, sucata e outros materiais alternativos são utilizados na criação de instrumentos musicais, cenários, objetos cênicos, bonecos e por aí vai.

Mas foi a partir dos anos 2000 que o lixo entrou de vez no cardápio de insumos utilizados por artistas para expressar sua arte. Na época, o artista plástico Siron Franco (http://www.sironfranco.com/) ilustrou magistralmente o documentário e série televisiva “O Desafio do Lixo”, dirigido pelo jornalista Washington Novaes (http://www.washingtonnovaes.com.br/). A partir de então, dezenas, centenas de artistas têm trabalhado com lixo e sucata para criar, surpreender e encantar.

Mais recentemente, o tema ganhou a grande mídia com a indicação ao Oscar do filme “Lixo Extraordinário” (http://www.lixoextraordinario.net/). O grupo cultural Boca do Lixo é outra turma que, embora mais jovem, faz um trabalho maravilhoso com música, teatro e circo tendo o lixo como base para suas criações. Por fim, o Blog do lixo (https://www.blogdolixo.com.br), iniciativa que merece ser mencionada, pelo caráter informativo, educativo e instrutivo de seu conteúdo. Se fosse para apontar todos os trabalhos que conheço que utilizam o lixo como matéria-prima, daria para escrever páginas e páginas. Por hora, para quem se interessar, recomendo visitar os links grifados neste texto. Nas próximas postagens voltaremos ao tema.