Lixo: o lado incômodo do consumo

16 de abril de 2014, por em Artigos, Consumo, Lixo
Lixo: o lado incômodo do consumo

Somos responsáveis pelos produtos que compramos desde o momento em que os tomamos em mãos até a destinação final que damos a eles. No Brasil, isso já é lei, e atinge as empresas e o cidadão comum.

O aumento da população mundial, somado à crescente demanda de consumo, está gerando um lixo descomunal no planeta. A Organização das Nações Unidas (ONU) vem alertando os governos para a ameaça de que ocorra uma “crise global de resíduos”. De acordo com o Pnuma, programa da ONU para o meio ambiente, as cidades geram 1,3 bilhão de toneladas de resíduos sólidos anualmente, devendo chegar a 2,2 bilhões de toneladas até 2025.

Atualmente, cada ser humano consome, em média, 9 toneladas de materiais ao longo de sua vida. Considerando que são 7 bilhões de habitantes no planeta, não é difícil estimar o volume de bens produzidos e, consequentemente, de lixo gerado por tamanho contingente populacional. O ritmo de consumo registra marcas históricas, superando em 50% a capacidade de recuperação do planeta. A previsão da ONU é de que chegaremos a 9 bilhões de habitantes em 2050.

A geração de lixo em níveis tão elevados sinaliza a dimensão do impacto da atividade humana na Terra. É lixo de toda ordem, muitos deles são pouco conhecidos, pouco divulgados ou sem nenhuma divulgação, como o lixo espacial, atômico e radioativo, por exemplo. Pairam na órbita terrestre detritos oriundos de naves espaciais, satélites, foguetes e outros fragmentos lançados no espaço por inúmeros países. Trata-se de detritos que podem causar acidentes e catástrofes para a humanidade cá abaixo dos céus.

Mas se em alguns setores é difícil avaliar a quantidade de lixo gerado, em outros, é visível o seu crescimento, como é o caso do lixo industrial e doméstico. Com a evolução tecnológica, os produtos tornam-se obsoletos da noite para o dia, tudo parece descartável e tudo é substituído por novas versões que chegam ao mercado. A população, de outro lado, é bombardeada para consumir, e cada vez consome mais.

Em nossa cultura, falar sobre redução de consumo, consumo consciente e coisas do gênero, nem sempre é uma conversa bem-vinda. As pessoas reagem mal quando são levadas a refletir sobre o fato de que tudo o que consomem gera lixo e que, assim como quando se compra uma mercadoria ela nos pertence, pertence também a nós o lixo que ela gera. Somos responsáveis pelos produtos que compramos do momento em que os tomamos em mãos até a destinação final que damos a eles.

O que fazer com o lixo é a pergunta que ronda o século XXI. Com tanto lixo caindo sobre nossas cabeças, o Brasil não teve mais como ignorar o problema e tampouco postergar uma ação concreta de enfrentamento ao cenário exposto pelo lixo. Daí, depois de duas décadas adormecido, saiu da gaveta o projeto de lei que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, em 2 de agosto de 2010. Dois anos seria o prazo que o país teria para desenvolver os planos de gestão ambiental e implantar a política. O prazo foi estendido, mas na maioria das cidades brasileiras os planos de gestão mal começaram.

Cabe à sociedade, participar, acompanhar e cobrar das autoridades a consecução da Política Nacional de Resíduos Sólidos, de forma a promover mudanças no ambiente e na cultura consumista predominante.

 

Imagem: Sam Cornwell – Shutterstock.com.jpg