Consumismo: um modus operandi esgotado do capitalismo

19 de agosto de 2016, por em Consumo, Entrevistas
Consumismo: um modus operandi esgotado do capitalismo

O nível atual de consumo está refletindo diretamente no desequilíbrio ambiental a que chegou o planeta: sobram demandas e faltam recursos naturais para provê-las. Considerando que a natureza é a fonte de matéria-prima que dá origem aos produtos, cada vez mais, será necessário consumir menos. No entanto, muitas pessoas ainda não conseguem ver esses dois lados, que convergem para um único vértice. Sentem-se felizes e gratificadas quando estão comprando, quando estão praticando o consumismo, sem se darem conta de que suas escolhas têm uma relação direta com o meio ambiente. As escolhas individuais determinam o impacto que cada um causará à Terra, a Casa Mãe de todos nós.

Nesta entrevista, o psicólogo Domenico Ungh Hur, mestre e doutor em Psicologia Social pela USP, aborda o fenômeno do consumismo.

Blog do Lixo – Somos uma sociedade capitalista e consumista. Recebemos todo tipo de estímulo para consumir, de forma clara e também subjetiva, imperceptível.  É possível mudar essa cultura? Como?

Domenico Ungh Hur Sim. Chamo de subjetividade capitalista a que vivemos hoje em dia, voltada ao consumismo, a uma lógica quantitativa, à competitividade, à rivalidade com outro e à exploração da mais valia, seja do trabalhador, ou da natureza. Nessa cultura que vivemos assumimos um lugar predatório ante os demais e à própria natureza. Desse modo, é necessária a constituição de uma nova subjetividade, que perpasse relações sociais mais solidárias e uma nova relação com o meio ambiente, não mais do ponto de vista da exploração, mas sim, de uma ocupação consciente.

Blog – Para muitas pessoas, comprar dá prazer e alegria. Até que ponto o consumismo é prejudicial? Existe felicidade fora do consumo?

Domenico Hur O indivíduo consumidor é uma produção da sociedade capitalista. Há um imperativo que as pessoas devem consumir mais e mais, e uma associação entre consumo e felicidade. Entretanto, é uma associação produzida pelo mercado para que as pessoas comprem e, assim, mantenham as engrenagens das indústrias rodando. Atualmente, pesquisas comprovam que o aumento do consumo não indica maior felicidade. Compreendo que o consumismo não traz bons afetos, mas apenas experiências de satisfação imediata, que logo se esvanecem no ar. Por exemplo, as crianças dessa geração possuem e consomem muito mais brinquedos do que a 20 anos atrás e não constatamos que estejam mais felizes por isso. Pelo contrário, apresentam-se muitas vezes apáticas, com menor tolerância à frustração. A felicidade não está atrelada ao consumo, tanto que experiências afetivas com os outros, conhecer lugares novos, trazem experiências mais intensivas do que comprar.

Blog – Recente pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito e Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas apontou crescimento do consumidor com perfil consciente, menos consumista. Onde estaria a origem dessa mudança de comportamento?

Domenico Hur Esse comportamento consciente vem de inúmeras variáveis. Primeiro, uma concepção ampliada do ecológico, na qual se constata que o ritmo de exploração do meio ambiente, da natureza, dos mananciais, está levando o planeta a uma crise de sustentabilidade. Segundo, uma percepção mais clara das relações sociais, com a tomada de consciência de que não se deve consumir produtos por serem de marcas socialmente legitimadas, ou chiques, para se afirmar perante o outro.

Os recentes escândalos de marcas de roupas famosas utilizando mão de obra escrava, serviram para diminuir o fetiche das marcas. E, terceiro, uma autoanálise da própria existência individual, ao constatar que a promessa de felicidade articulada ao consumo, trazida pelo capitalismo, não se concretizou. Muito pelo contrário, há uma crise da subjetividade capitalista, pois o volume de trabalho e de consumo apenas produziu uma subjetividade cansada, esgotada e endividada.

Urge novas formas de sociabilidade e uma subjetividade alternativa à capitalista. É algo que trabalhamos no meu último livro “Psicologia Política Crítica: insurgências na América Latina”. 

Domenico Ungh Hur

Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia Social pela USP, com estágio doutoral na Universitat Autònoma de Barcelona. Professor adjunto da Universidade Federal de Goiás (UFG) e membro do Crise (núcleo de estudos e pesquisas Crítica, Insurgência, Subjetividade e Emancipação. Autor de obras na área, sendo a última delas, Psicologia Política Crítica: insurgências na América Latina.

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