O poder do consumidor de decidir – Patrícia Pacífico

26 de dezembro de 2012, por em Entrevistas
O poder do consumidor de decidir – Patrícia Pacífico

A história do Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais mostra a força que tem a sociedade, quando mobilizada em defesa de seus direitos

Trazer donas de casa e consumidores para o centro dos debates é um desafio. Como o MDC-MG trabalha o diálogo com a sociedade, o poder público e as empresas?

De maneira totalmente harmônica, no sentido da complementaridade. Acreditamos que a bola da vez são as parcerias estabelecidas entre os três poderes, ou seja, a integração entre o primeiro, o segundo e o terceiro setor. Dentro dessa visão, o MDC vem desenvolvendo sólida parceria com o Governo de Minas, que permitiu potencializar nossas ações e contribuir de maneira abrangente para a democratização das relações de consumo. Realizamos também parcerias importantes com empresas privadas, que permitem disponibilizar ao consumidor uma consistente referência bibliográfica sobre práticas de consumo e sobre o trabalho desenvolvido pelo MDC. A entidade, pioneira no segmento de defesa do consumidor, é atualmente qualificada como Oscip (organização da sociedade civil de interesse público).

Por meio do movimento, a sociedade tem acesso às informações de consumo, sendo o atendimento realizado na sede, inclusive jurídico, totalmente gratuito. Ressaltamos as ações em prol da inclusão social das pessoas da terceira idade, em que destacamos a formação do grupo teatral e do canto coral da entidade.

Questões ambientais, como a gestão do lixo e o uso de energia estão em pauta. Como donas de casa e consumidores podem influir na tomada de decisões nessa área?

Com seu grande potencial de mobilização, forte atuação como formadores de opinião e também promovendo a integração dos MDCs de todo o Brasil. É o poder da sociedade civil organizada, ou como atualmente são chamados, movimentos sociais. É a força que surge a partir da mudança de atitude, é a evolução do olhar contemplativo para o de cidadão pró-ativo, capaz de mudar um contexto ou uma realidade que não lhe agrada.

O que fomentou, há 28 anos, a criação do MDC-MG?

O Brasil vivia uma crise, um momento delicado na economia e inflação galopante, atingindo 95,2% em 1982. Era um ambiente economicamente insustentável, e o consumidor era quem mais sofria com essa realidade.

Foi daí, que uma dona de casa inquieta e inconformada com este cenário resolveu ir à luta e, literalmente, “colocar a boca no trombone”… Assim, lideradas pela forte inspiração dessa dona casa, de nome Lúcia Pacífico, que as demais donas de casa foram às ruas lutar por seus direitos. De maneira totalmente precária, elas iniciaram a prática de realizar pesquisas de preços e qualidade de produtos. A partir daí, as ações foram sucessivas, entrando em cena campanhas de boicote a produtos e preços fora dos padrões considerados aceitáveis por elas, dentre outras iniciativas, sempre conclamando a população para também abraçar a causa.

Surge então, de maneira formalizada, em 13 de setembro de 1983, a Associação das Donas de Casa, vindo mais tarde a incorporar os consumidores, quando alterou sua razão social para Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais. Esta alteração estatutária refletiu uma quebra de paradigma, pois denotou a mudança da cultura do consumidor do sexo masculino, que se engajou na luta pelos direitos do consumidor.

Que papel tiveram as donas de casa e os consumidores nesse processo?

Conforme dito, a decisão de construir o trabalho do MDC-MG foi conjunta, entre a presidente Lúcia Pacífico e várias outras donas de casa, cansadas dos abusos cometidos contra o consumidor. Estas mulheres começaram então, a ir às ruas, fazer com que sua voz fosse ouvida. Naquele momento crítico,vivido em 1983, com várias trocas de moeda, inflação nas alturas e preços de produtos e serviços se modificando a cada minuto, alguém precisava lutar contra tudo aquilo, principalmente contra o descaso cometido com o consumidor. Entra então, em cena, o trabalho das formiguinhas, legitimado,por meio desta entidade, recém criada.

Que valores predominam entre os afiliados ao MDC-MG quando o tema é responsabilidade social?

A frase que se tornou um verdadeiro “mantra” para todos que, de uma maneira ou de outra, desenvolveram um sentimento de pertencimento à entidade, resume esta questão: “Diga não ao desperdício – a natureza agradece”.

Como o MDC-MG atua para atender as expectativas do consumidor?

Mantendo firme sua atitude e ideais, e, sobretudo, sendo fiel à missão de contribuir para a harmonia das relações de consumo e melhoria da qualidade de vida da população.