Valores éticos e morais influenciam mercado – Ricardo Voltolini

20 de fevereiro de 2013, por em Entrevistas
Valores éticos e morais influenciam mercado – Ricardo Voltolini

Em suas palestras sobre a Plataforma Liderança Sustentável (www.ideiasustentavel.com.br/lideres) Ricardo Voltolini conta como alguns  empresários estão influenciando o mercado com seus valores éticos e morais.

O que têm em comum os empresários considerados líderes em suas empresas e fora delas?
Uma das conclusões da Plataforma Liderança Sustentável é que líderes em sustentabilidade se distinguem dos demais por acreditarem, de verdade, nos valores que estruturam o conceito de sustentabilidade, utilizando-os como driver para a tomada de decisão, por praticarem a noção de interdependência entre os sistemas econômico, social e ambiental, por inserirem o conceito na gestão do negócio e criarem sinergia entre pessoas, sistemas e processos.

Liderança é tema difícil de explicar, mas fácil de entender. Especialmente quando se está diante dos problemas causados por sua ausência ou escassez numa empresa.
Em sustentabilidade, a liderança corresponde a uma variável fundamental de sucesso, talvez a mais decisiva entre elas. Isso ficou claro quando, dois anos atrás, após uma longa investigação com executivos de 30 empresas, constatei que a sustentabilidade avançara mais em companhias onde esta era vista como oportunidade e não risco, estava inserida na estratégia de negócio, havia uma preocupação de envolver públicos de interesse e comunicar-lhes o valor das iniciativas e – mais importante de tudo – existia um líder sentado na cadeira de presidente, pessoalmente envolvido com o tema e com o desafio de incorporá-lo à cultura organizacional. Não por conveniência, mas por convicção.

O que você concluiu ao entrevistar pessoas que são vistas como “notáveis” pelo mercado?
A experiência permitiu-me concluir que eles fazem a diferença porque se diferenciam dos líderes convencionais nos seguintes aspectos. Eles creem, de verdade – e não para constar – nos valores que definem o conceito de sustentabilidade, como o respeito ao outro, ao meio ambiente e à diversidade, têm apreço pelo diálogo, pela ética nas relações e pela transparência. Mais do que isso, praticam esses valores nos seus atos, escolhas e decisões de negócio. Zelosos, sabem que a coerência entre o que dizem e fazem é condição básica para gerar credibilidade e obter o compromisso necessário à inevitável mudança de cultura, sistemas, modelos e estratégias.

Nas empresas que dirigem, o chamado triple bottom line é mais do que um mantra corporativo entoado para agradar colaboradores, clientes e investidores. Antes disso, acreditam para valer na noção que dá suporte ao “triplo resultado”, a de interdependência entre os sistemas produtivo, social e ambiental. E são movidos por uma consciência de que essas três dimensões constituem não pedaços separados, mas elementos de uma visão mais ampla, essencialmente sistêmica, segundo a qual não se admite a ideia do lucro legítimo com prejuízos ao planeta e à sociedade.

Que condutas e valores são característicos desses líderes?
Eles cultivam a coragem para romper com modelos mentais moldados na velha economia e que resistem à ideia da sustentabilidade por razões filosóficas, mercadológicas ou operacionais. E têm persistência para conduzir as transformações inevitáveis, mostrando os benefícios concretos da sustentabilidade para o negócio e para a prosperidade da empresa nesses tempos de aquecimento global e consciência da finitude dos recursos naturais.

São, sobretudo, bons comunicadores da “causa” e hábeis mestres na arte de construir sinergias e ambiente favorável para a inovação advinda das bordas da empresa. Humildes no melhor sentido da palavra, cientes de que, dados os desafios empresariais deste século, a capacidade de escuta mede mais a estatura de um líder do que a do discurso, eles entendem que líderes para a sustentabilidade equivalem a uma espécie de recurso renovável numa organização. E que seu papel é garantir que se renovem.

O que eles trazem de novo para o mercado e o que estão propondo?
A visão dos novos líderes se contrapõe à lógica economicocêntrica, fragmentada e cartesiana, característica da gestão de negócios do século 20, e oferece como alternativa, uma perspectiva sistêmica, multidisciplinar e interdependente, segundo a qual o interesse do lucro não está acima nem pode vir em detrimento dos do planeta e da sociedade. Essa noção, decorrente de valores emergentes neste século 21, estabelece-se a partir da constatação de que os recursos são finitos, meio ambiente e comunidades não são – como se imaginava antes – “externalidades” e o planeta encontra-se em curso preocupante de aquecimento.

Para eles, assim como para a Ciência, a escassez potencial de insumos da natureza junto com as mudanças climáticas põem em risco o futuro das próximas gerações, o que dizer da prosperidade dos negócios? A própria noção de prosperidade, como resultado direto de crescimento econômico, está na berlinda. E é esse o dilema a ser enfrentado hoje pelos governos e agentes de mercado.

Como superar o dilema que confronta prosperidade econômica com restrição de consumo?
Com a substituição de um modelo de desenvolvimento e de uma economia comprovadamente insustentáveis por uma modelo e economia sustentáveis, que possibilitem geração de riqueza com equilíbrio ambiental e justiça social. Não vivemos mais, como no século 18, em que a Terra parecia grande e ilimitada. E os mercados acreditavam que sempre retirariam da natureza o que precisassem. Agora, os próprios líderes nos ensinam que as empresas precisam aprender a produzir de modo sustentável, os indivíduos precisam aprender a consumir de modo sustentável e os governos precisam estimular empresas e indivíduos a produzirem e consumirem de modo sustentável.

O modelo econômico baseado no consumo de combustíveis fósseis, no carro como senhor da mobilidade e em produtos descartáveis tem, portanto, os seus dias contados. A nova economia precisará ser erigida em torno de energias renováveis, de sistemas de transporte diversificados e da ideia de reuso e reciclagem de todos os materiais. Alterar a rota é urgente e, principalmente, viável na medida em que a humanidade dispõe de tecnologia e capacidade política suficientes. Resta saber, no entanto, se está preparada para fazê-lo “em velocidade de tempos de guerra”.

Qual é a ótica do mercado hoje em relação à sustentabilidade?
A ótica da oportunidade e não do risco. Já não se busca mais ser sustentável para evitar perdas (recursos naturais, eficiência, reputação, imagem e ambiente de negócios), mas para inovar e obter lucros. As empresas que avançaram na inserção do conceito em seus negócios estão investindo em pesquisa, desenvolvimento e inovação de processos, produtos e serviços.

Como criar uma cultura baseada no conceito da sustentabilidade?
Desenvolvendo uma visão clara do que a sustentabilidade significa para a empresa;
Educando os stakeholders de forma continuada;
Desenvolvendo e reforçando a liderança;
Estabelecendo uma visão de longo prazo.

Em quê uma nova cultura implica?
Em uma profunda revisão ética no modo de pensar e realizar negócios em um mundo caracterizado pela escassez de recursos, crescente desigualdades sociais e um planeta sob ameaça da desastrosa intervenção humana.

Mudanças em princípios e práticas, reengenharia de processos, modelos de produção e consumo, envolvimento e mobilização de públicos de interesse.

Empresas e indivíduos assumindo responsabilidades sociais e ambientais.

Fonte: revista Cores – (www.sintesecom.com.br/revistacores/decimaedicao.pdf).

Foto: Sílvio Simões