Protagonismo dos catadores na cadeia do lixo muda cenário social

8 de abril de 2016, por em Entrevistas, Lixo
Protagonismo dos catadores na cadeia do lixo muda cenário social

ENTREVISTA – 

O histórico acadêmico, conjugado a uma atuação profissional específica e direcionada, fizeram de Fátima Gottshalg uma especialista na interpretação e intervenção de cenários envolvendo a camada mais pobre da população brasileira. Fátima Gottshalg é assistente social, doutoranda em Ciências Sociais e mestra em Geografia na área de segregação socioespacial (assentamentos precários, vilas e favelas). Especializou-se em projetos relacionados à gestão de resíduos sólidos e atua com política urbana de habitação de interesse social e de resíduos sólidos, incluindo o Plano de Gestão Integrada, preconizado na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Blog do lixo – Que relação você faz entre a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a inclusão social dos catadores de materiais recicláveis? 

Fátima Gottshalg – A gestão de resíduos sólidos vai além da limpeza urbana e da preservação ambiental, engloba as questões de inclusão social e promoção da cidadania. A catação é fonte de geração de trabalho e renda para muitos que não têm qualificação formal. Por isso, precisa ser abordada sob a perspectiva social, considerando a inclusão dos catadores organizados em cooperativas e associações. Se não houver a coleta seletiva e a logística reversa, perdem-se as oportunidades de se promover a inclusão social de milhares de famílias que vivem em situação de pobreza.

Por outro lado, a atuação dos catadores no processo é o que garante o sucesso da Política Nacional de Resíduos Sólidos, pois são eles que atuam na coleta seletiva, na triagem, na classificação, no processamento e na comercialização dos resíduos recicláveis. O trabalho deles é fundamental para a redução do volume de lixo enviado para descarte e para aterramento inadequado, de modo a reduzir os impactos negativos causados ao meio ambiente pelo lixo.

Blog do lixo – A PNRS prevê uma gestão compartilhada dos resíduos sólidos, isso está acontecendo? 

Fátima Gottshalg – A gestão compartilhada acontece quando se tem uma discussão com a sociedade, parceria com a cadeia produtiva para a logística reversa e com outros setores da limpeza urbana como, por exemplo, os conselhos municipais e os fóruns criados para ajudar nessa articulação. Em Belo Horizonte, temos o Fórum Municipal Lixo e Cidadania, que incentiva a coleta seletiva, a integração das organizações de catadores com o poder público e a valorização da categoria do catador de material reciclável. Também está sendo elaborado no município de Belo Horizonte o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Urbanos, seguindo uma determinação da política nacional. Neste, está prevista a participação da sociedade civil, embora timidamente e em caráter apenas consultivo.

Blog do lixo – Como é esse diálogo com os catadores de materiais recicláveis? 

Fátima Gottshalg – O diálogo acontece por meio das cooperativas e associações, depois no nível de redes. O objetivo é fortalecer as organizações de catadores, dando a elas a capacitação necessária para conduzir as negociações na cadeia da reciclagem.

Existe uma boa articulação para o entendimento e registro das demandas de fortalecimento das redes de cooperativas. Mas ainda há pouca escuta por parte dos representantes municipais para adotarem as medidas apontadas nos planos de gestão participativa desenvolvidos pelas redes, com os incentivos do programa Cataforte.

Blog do lixo – O que é o Cataforte?

Fátima Gottshalg – O Cataforte é um programa do Governo Federal que envolve diversos parceiros, instituições governamentais, visando fortalecer as redes de cooperativas de catadores, por meio da capacitação para a gestão e empreendedorismo. Ao mesmo tempo, dar voz aos catadores, para que sejam reconhecidos como profissionais na rede da reciclagem. O Cataforte está em sua terceira edição. A primeira orientou a estruturação legal dos empreendimentos na economia solidária; a segunda buscou recursos para equipamentos; a terceira segue com o planejamento e a execução da gestão (gestão participativa, plano de negócio, plano contábil, plano de logística e projetos de engenharia), fortalecendo a autogestão das redes de catadores. 

Blog do lixo – Você atuou na elaboração de planos participativos para cooperativas de catadores. Esse modelo de gestão está dando resultados?

Fátima Gottshalg – Atuei no planejamento da Redesol, uma rede de cooperativas que compreende 14 empreendimentos, localizados na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Os planos elaborados para a Redesol, no âmbito do Cataforte, foram e estão sendo construídos de forma participativa, diretamente com os catadores, a partir das demandas por eles identificadas. Percebo que eles precisam se fortalecer internamente enquanto grupo, e também externamente, buscando reduzir a situação de fragilidade social em que se encontram, e aumentar sua autonomia na cadeia da reciclagem. O planejamento participativo estimula o envolvimento dos cooperados nas análises e na responsabilidade de fazer dar certo o que foi idealizado.

Blog do lixo – Quais são hoje os maiores desafios para as cooperativas?

Fátima Gottshalg – Há muitas demandas imediatas que precisam de apoio do poder público: galpão de triagem, equipamentos e insumos para trabalhar, já que a quantidade de material reciclável a ser processado depende da ampliação da coleta seletiva municipal. Será preciso recursos para implementar as ações. O receio está na dificuldade de se levantar esses recursos, diante da crise econômica vivida pelo país. Os recursos precisam ser acionados junto ao Governo Federal e demais parceiros públicos. Trata-se de um investimento importante, de grande peso social e ambiental, que não pode ser esquecido em meio ao embate político atual, que não deixa aparecer os resultados positivos das ações do governo. Dou como exemplo os programas de fortalecimento da economia solidária, onde o Cataforte se enquadra.

Blog do lixo – E sobre a logística reversa, qual é a situação? 

Fátima Gottshalg – Os acordos setoriais para a efetivação da logística reversa ainda estão caminhando, e esse é um viés importante para uma responsabilidade compartilhada. O sistema de logística reversa favorece as parcerias entre as cooperativas de catadores e os entes geradores, além de fortalecer os programas de responsabilidade pós-consumo, que tratam do recolhimento e destinação adequada dos resíduos.

Há que se destacar a grave questão de aterramento inadequado de resíduos em lixões e o grande volume de material reciclável que é aterrado pela falta da coleta seletiva. A erradicação dos lixões ainda é um desafio, os equipamentos e processos são complexos e caros, pois envolvem a disponibilização de áreas para a construção de aterros sanitários e triagem dos materiais recicláveis e resíduos de obras. E, como todos sabem, a terra urbana está cada vez mais reduzida e cara, se não tem lugar pra habitação, imagine pro lixo!

Blog do lixo – A sociedade mostra interesse em fazer sua parte na questão do lixo, mas estaria ciente de que reduzir o consumo é mais importante do que reciclar? 

Fátima Gottshalg – É preciso estimular a consciência do consumidor para dizer não ao consumo. Temos uma sociedade de consumo que não se preocupa com o impacto do seu consumo. É preciso ampliar a compreensão em relação àquilo que se consome, o resíduo que é gerado desse consumo e a responsabilidade do gerador sobre seu próprio lixo. Tem-se confundido o sentido dos 3 Rs: reduzir, reaproveitar, reciclar. Reciclar vem por último, não dá pra pensar que separar o lixo e colocar para o caminhão coletar está tudo bem, que fizemos a nossa parte. A cadeia produtiva do lixo é complexa, reciclar é a alternativa para o que já foi descartado, devemos reduzir para descartar menos.

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Fátima Gottschalg em reunião de planejamento com equipe da Redesol-MG (Cooperativa Central Rede Solidária dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de MG)