“Reaproveitando a Chapada” – projeto difunde cultura e cidadania – Christiano Verano

19 de setembro de 2014, por em Colaboradores, Lixo
“Reaproveitando a Chapada” – projeto difunde cultura e cidadania – Christiano Verano

A Vila de São Jorge (Alto Paraíso de Goiás) é um pequeno povoado, de aproximadamente 500 habitantes, cravado na Chapada dos Veadeiros, cerradão bruto no Nordeste goiano. Além do patrimônio natural exuberante e inestimável, típico de todas as chapadas brasileiras, a região abriga um histórico de ocupação humana bastante peculiar, carregado de riquezas culturais. Desde as tradições indígenas, passando pela sabedoria quilombola dos calungas, a agropecuária e o extrativismo dos caboclos, até os tempos da mineração de cristais, quando houve uma certa prosperidade econômica na região.

Esse processo histórico, associado a um território de tamanha riqueza natural, ajudou a construir a nova base socioeconômica daquele povoado: o turismo. É nesse contexto que se realiza anualmente o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Evento maravilhoso, que reúne dezenas de grupos folclóricos e artísticos, artesãos, mestres de ofício, figuras de todo tipo, trazendo contribuições culturais. Acontecem apresentações, shows, oficinas, cortejos, rodas de dança e outras iniciativas da cultura popular.

O lixo sob novo olhar

Na época do evento, a quantidade de visitantes é 15 a 20 vezes maior do que o número de habitantes da Vila. Mais pessoas, mais consumo. Mais consumo, mais lixo! Em um vilarejo como o de São Jorge, o impacto do lixo é extraordinário. Imagine qualquer cidade, durante duas semanas, produzindo de 15 a 20 vezes mais lixo do que em dias normais. Tem tudo para virar um caos.

Foi com esse raciocínio e entendimento, que o Mestre Guará, um talentoso artesão, de Goiânia, teve a ideia de realizar oficinas de arte com materiais reaproveitados do lixo. A intenção é provocar nas pessoas a reflexão sobre o consumo, de onde provém o lixo, e sobre a sustentabilidade do planeta. Para isso, ele convidou o Mestre Dantas, um artesão camarada, tão talentoso quanto ele; e a Mestra Waldira, igualmente “bróder”, que transforma em belo tudo o que toca. A eles se juntaram o Grupo Boca do Lixo, composto por jovens artistas, motivados a usar o lixo para fazer arte, e a Mito Projetos Socioculturais, uma pequena empresa com vocação para trabalhar cultura popular associada às questões ambientais. Juntos, eles criaram o projeto Reaproveitando a Chapada, cuja primeira edição aconteceu entre julho e agosto de 2014, na Vila de São Jorge, durante o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.

A participação se deu por meio de 25 oficinas, divididas nos seguintes grupos: maquetes de papelão, brinquedos de garrafas PET, música sustentável (com instrumentos construídos a partir do lixo), reaproveitamento de vidro, papel, plástico e retalhos, e figurinos e adereços feitos com esses materiais. Aproximadamente 400 pessoas, de 34 cidades, 9 estados brasileiros e 4 países diferentes, participaram das atividades.

O que foi reaproveitado:

– 75 caixas de papelão e tetra pak
– 50 garrafas de vidro,
-120 latinhas de alumínio,
– 250 garrafas pet, galões e recipientes plásticos diversos,
– 30 sacolas plásticas,
– objetos variados, como: hélice de ventilador, chapa de fogão, casca de côco, dentre outros retirados do lixo.

O que foi produzido:

60 arranjos decorativos
50 flores
59 casinhas
3 vassouras
148 brinquedos
14 figurinos e adereços
40 instrumentos musicais

A quantidade de resíduo reaproveitado pode até parecer pequena, se comparada com o volume de lixo produzido no evento, mas o mais importante dessa iniciativa é que ela congrega diversas pessoas, de idades e culturas distintas para uma reflexão comum: A de que é preciso criar uma nova consciência em torno do consumo, do reaproveitamento do lixo, da reciclagem e, por fim, do próprio equilíbrio do planeta, que poderá ficar insustentável diante do crescente esgotamento dos recursos naturais. As oficinas criam o ambiente adequado para uma reflexão lúdica sobre o problema, e o fazem por meio das expressões artísticas e culturais de nossa terra.

Christiano Verano
Produtor cultural
verano@yahoo.com.br