29 nov 2017

Desafio da moda é ser sustentável para sobreviver

por há 3 semanas atrás
Entrevistas | Sustentabilidade
Desafio da moda é ser sustentável para sobreviver

Esse ano, o San Francisco Sustainable Fashion Week e o Community Fashion Week, eventos que acontecem em São Francisco, na Califórnia (EUA), apresentaram o que há de novo dentro da pegada do sustentável e do ecologicamente correto em termos de moda. É um show de criação: roupas super usáveis, economicamente viáveis e também muito diferentes.

Os eventos envolvem desde pessoas comuns a organizações sem fins lucrativos, como a Wardrobe For Opportunity (WFO), voltada para atender as necessidades de emprego e profissionalização de pessoas de baixa renda.

O San Francisco Sustainable Fashion Week e o Community Fashion Week criam oportunidades para que o conceito de sustentabilidade seja incorporado ao mundo da moda, como conta Shirin Hashem nessa entrevista. Ela é fundadora e produtora executiva do Community Fashion Week, em San Francisco.

Aguida Zanol (AZ) – Trabalhando tanto tempo para grandes corporações, como foi esse salto para o empreendedorismo na sua vida?

Shirin Hashem – Após 14 anos em diferentes corporações, decidi empreender por conta própria. Acreditei e acredito que possa fazer muito mais como empreendedora, principalmente na área da moda sustentável. Hoje, faço parte de dois conselhos para mulheres de negócios que são startups e dou suporte para designers que vêm de meu país, a Arábia Saudita, e de outros países orientais, é uma forma que encontrei de levar essa mensagem até eles.

AZ – Por que a questão da sustentabilidade está tão presente?

Shirin A ideia de trazer a sustentabilidade para o centro da moda começou na edição 2013/2014, por ocasião do Dia da Terra. Venho de um país onde o desperdício é alto; as pessoas compram um vestido somente para uma ocasião, pagam caríssimo, e depois descartam. Além disso, há os casos de exploração de mão de obra infantil e trabalhadores que recebem muito pouco e trabalham exaustivamente. Tudo isso vai contra os meus princípios, e por presenciar essas situações me senti encorajada a fazer algo para mudar essa realidade.

AZ – Que situações você presenciou?

Shirin Como compradora mundial de moda, tive a oportunidade de viajar para vários países da América do Sul e Ásia, visitei diversas fábricas e me deparei com pessoas trabalhando em condições degradantes. Tudo em função da produção em massa, que acaba por afetar também o meio ambiente. Temos que buscar uma forma de produzir sem explorar tantos bens naturais.

AZ – Como introduzir a sustentabilidade no mundo da moda?

Shirin Eu penso que precisamos de mais educação; nossa comunidade precisa saber escolher, ser mais assertiva e consciente em suas decisões. Sustentabilidade não é somente o tipo de tecido ou material que se utiliza na confecção, mas a combinação de tudo que faça parte do processo, sempre com a perspectiva de economizar recursos naturais. Ser mais minimalista do que maximalista, eu diria, algo como slow fashion.

AZ – Que expectativas você tem em relação a essa mudança de paradigma?

Shirin – Espero continuar a fazer o que estou fazendo. Isto é minha vida e o momento em que estou. Quero focar em sustentabilidade por meio da parceria com os designers que não têm representação ainda, os que estão nos bastidores. Há designers que vêm trabalhando arduamente para salvar o planeta, oferecendo novos estilos e possibilidades de vestir, usar e viver. Se você olha o número de designers que produzem coleção a cada ano, o percentual de sustainable designers ainda é muito pequeno.

AZ – E o mercado, como se comporta diante da ideia?

Shirin – De forma positiva e a cada dia com mais adeptos. Existem grandes marcas aderindo ao conceito da sustentabilidade, mesmo existindo um grande interesse econômico contrário a essa tendência, por trás das indústrias. O mesmo acontece com os sustainable designers, são difíceis de encontrar, mas estão em toda parte. Eu acredito que a cena do futuro, quando falarem em Paris Fashion Week ou London, ou Milano, as maiores, é o conceito de sustentabilidade vir a predominar em todos os segmentos.

Cortiça – a árvore das mil e uma utilidades
A cortiça é empregada como matéria-prima na fabricação de inúmeros produtos, e considerada nobre entre os designers focados em moda sustentável. “Trata-se de um material leve e que tem várias funcionalidades”, ressalta a designer Aguida Zanol. A cortiça é extraída da casca do sobreiro ou chaparro (Quercus suber), árvore da família do carvalho, cultivada no sul da Europa. A cortiça é retirada quando a árvore atinge entre 25 e 30 anos de crescimento, e se renova justamente pelo processo de retirada da casca.